Acareação: Braga Netto e Cid mantem versões diferentes sobre reunião e entrega de dinheiro  

Mauro Cid, o réu colaborador, disse que não lembra onde teria recebido dinheiro de Braga Netto, e cita três lugares diferentes.
Braga Netto manteve versão de que não entregou dinheiro a Cid. Foto: Tania Rego/ABr.

Com duração de cerca de uma hora e meia, de acordo com o Supremo Tribunal Federal (STF), a acareação entre os réus colaborador Mauro Cid e o general Braga Netto realizada nesta terça-feira, 24, manteve as versões de cada um sobre dois pontos divergentes nos depoimentos: reunião ocorrida na casa de Braga Netto e entrega de dinheiro pelo general a Mauro Cid.

O ministro Alexandre de Moraes, relator da Ação Penal  (AP 2668), que trata da suposta trama golpista para causar caos no país e impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 2023, disse antes de iniciar a acareação que  ao contrário das testemunhas os réus não tem o dever de dizer a verdade, por ter garantidos o direito constitucional ao silencio e a não autoincriminação.

Os dois pontos diferentes apresentados pelos réus foram mantidos na acareação, que foi solicitada pelo general Braga Netto. Um deles é a reunião ocorrida no dia 12 de novembro de 2022, após o resultado eleitoral, e outro é o pedido e entrega de dinheiro envolvendo também o Major Rafael Oliveira, que está supostamente envolvido na operação Punhal Verde, para matar algumas autoridades.

O relator franqueou a palavra ao procurador-geral do Estado (PGR), Paulo Gonet, para que apresente algum ponto de divergência a esclarecer, caso quisesse, e se a defesa de ambos teria algo a acrescentar. Como a imprensa não teve acesso e o encontro cara a cara dos dois não foi transmitido no canal do STF pelo youtube, a Corte divulgou “Termo de Assentada Audiência,” com vinte páginas, e também da acareação seguinte, a de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro e o ex-ministro do Exército general Gomes Freire.

Mauro Cid em primeiro depoimento à PF, disse que levou o Major Rafael Oliveira  à casa de Braga Netto para que tirasse uma foto com o general, conhecido por ter sido interventor da segurança no Rio de Janeiro.

Na audiência com Moraes, no STF, ele retificou o depoimento: declarou que na casa de Braga Netto o major e o também major Ferreira discutiram meios “de provocar um caos para que o presidente pudesse decretar” alguma coisa.

Cid declarou ainda que seria para evitar a posse de Lula, e que Braga Netto descartou usar caminheiros para promover caos porque o ex-presidente não queria. Na audiência de instrução, Cid disse que ficou na reunião na casa de Braga Netto por cerca de 15 minutos, que estavam presentes os dois oficiais já citados, e que foi tratada a insatisfação que havia até mesmo com o tratamento dado pelas Forças Aramadas à questão. Mas que, enquanto esteve no encontro, não houve o esboço de radicalismo, nenhum planejamento  ou “apresentação formal de alguma ideia.”

À pergunta de Moraes se Braga Netto mandou o colaborador sair, Cid disse que concomitante ao momento em que ele disse que iria deixar a reunião o general disse que não seria bom mesmo ele ficar por ser muito próximo ao presidente, que não era bom aproximar o ex-presidente esses assuntos, nenhuma relação com manifestantes ou contatos próximos a Bolsonaro.

Braga Netto, preso desde dezembro do ano passado por tentativa de obstrução de Justiça, negou a existência da reunião, dizendo que atendeu pedido de Cid para receber os oficiais das Forças Especiais que queriam conhecê-lo. O réu colaborador teria ligado ou interfonado, disse Braga Netto, negando ter tratado de ações em decorrência de insatisfação com o resultado eleitoral.

“Eu não os conhecia, inclusive perguntei a eles se haviam servido comigo, conversamos uns trinta minutos e Cid e os outros saíram juntos da minha casa,” disse o general.  Moraes pergunta se eles chegaram a falar que pretendiam fazer alguma operação, Braga Netto respondeu: “Não senhor, não tocaram em assunto nenhum de operação.”

Braga Netto disse também que Cid ficou o tempo todo na sua casa, e depois, ao tomar conhecimento da petição do oficial Hélio Ferreira viu que ele “conta a história exatamente como foi.”

“Eles chegaram subiram, queriam me conhecer porque eu tinha certo renome, falaram amenidades porque a distância era muito grande. Siaram os três juntos,” diz o general na audiência de instrução.

Entrega de dinheiro em sacola de vinho

Os dois sustentaram na acareação suas versões sobre suposto repasse de dinheiro para sustentar o plano Punhal Verdade.  Na acareação, perguntado pelo advogado de Braga Netto, Mauro Cid disse que não se recordava onde recebeu o dinheiro em uma sacola de vinho, falando em três lugares: sala da Ajudância de Ordens, garagem privativa  e estacionamento perto da piscina do Alvorada, onde costumava receber autoridades.

Ele não soube também precisar a data do mês de novembro de 2022 na qual teria sido entregue o dinheiro, o que foi negado por Braga Netto mais uma vez.

O general disse que de fato houve pedido de apoio por um dinheiro, mas que ele não sabia para o que era exatamente, porque Cid falou “general, o PL pode conseguir algum recurso que nós estamos precisando? E eu achei que era algo ligado a campanha, sempre acontecia isso, pedi para procurar o tesoureiro do partido, o Azevedo.”

Posteriormente, Braga Netto teria conversado com Azevedo e este teria comunicado a ele que o “dinheiro que Cid estava precisando nós não temos amparo para dar.”

Termo de acareação