Montadoras no Brasil não aceitam incentivo fiscal para chinesas apenas finalizar carros no país

Presidente Lula ignora carta de quatro grandes fabricantes que alertaram para demissão caso concorrentes, que não vão comprar de fornecedores do Brasil, paguem menos imposto.
Lula ainda não teria se manifestado sobre a carta das empresas. Foto Ricardo Stuckert/ PR

Volkswagen, Toyota, General Motors e Stellantis se uniram contra a China. Fabricantes de carros estabelecidas no Brasil, com unidades de produção consolidadas, advertem o governo Lula para demissão caso seja concedido incentivo fiscal para empresas da China somente finalizarem veículos no Brasil. O país não ganha, já que peças e componentes usados seriam 100% produzidos naquele país.

Uma carta assinada por representantes das quatro fabricantes de veículos em 15 de julho encaminhada ao Palácio do Planalto é ignorada pelo presidente Lula e pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa. O documento, enviado ainda ao ministro Geraldo Alckmin, da Industria e Comércio, merece igual silêncio, segundo divulgou o Poder360 nesta segunda-feira, 28 de julho.

A história do incentivo estava longe do agitado noticiário até O Estadão revelar, no domingo, 27, que o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), formado por integrantes de 11 ministérios do governo, realizará reunião extraordinária na quarta-feira, 30, para decidir sobre medidas que podem beneficiar a indústria de automóveis chinesa no Brasil.

O que vai para a mesa são causas da BYD, apresentadas em fevereiro, segundo o Estadão. A empresa chinesa pediu redução de imposto de importação de kits SKD (Semi Knocked Down) e CKD (Completely Knocked Down), de 5% para carros elétricos e 10% nos veículos híbridos. Atualmente, as taxas são, respectivamente, de 18% e 20%.  Nesse sistema, fornecedores no Brasil deixam de ser contratados e a geração de emprego é pequena.

Na carta, a Stellatins, que opera no Brasil com as marcas Fiat, Jeep, Citroën e Peugeot, a Volkswagen, Toyota e General Motors dizem que “o fortalecimento da indústria nacional está sendo colocado em risco e sofrerá forte abalo se for aprovado incentivo à importação de veículos desmontados para serem acabados no país.”

“Ao contrário do que querem fazer crer, a importação de conjuntos de partes e peças não será uma etapa de transição para um novo modelo de industrialização, mas representará um padrão operacional que tenderá a se consolidar e prevalecer, reduzindo a abrangência do processo produtivo nacional e, consequentemente, o valor agregado e o nível de geração de empregos,” continua o documento.

Números consistentes

Subscrevem a carta Ciro Possobom (Wolskwagen do Brasil); Evandro Maggio (Toyota do Brasil); Emanuelle Capellano (Stellantis Automóveis do Brasil) e Santiago Chamorro (General Motors do Brasil). Eles apresentam “números consistentes” para demonstrar o acerto da política da indústria automotiva no Brasil, que vem evoluindo desde os anos 50 com uma visão desenvolvimentista, com a estratégia de produção local de veículos e componentes.

O Brasil tem hoje 26 pontos de fabricação de veículos e 508 produtores de autopeças, responsáveis por uma cadeia produtiva que resulta em 2,5% do PIB brasileiro e geração de mais de 1 milhão de empregos. A Stellantis, por exemplo, tem fábricas em Betim (MG), Goiana (PE) e Porto Real (RJ), e conta com centro de tecnologia e design em Betim.

As montadoras, com plano de investir R$ 180 bilhões nos próximos anos, sendo R$ 50 bilhões no parque de autopeças, investimentos de conhecimento do Ministério da Indústria, alertam que a falta de igualdade de condições na competição pelo mercado vai gerar desemprego nas fábricas brasileiras e indiretamente nos fornecedores.

Ao presidente Lula pedem que seja “assegurada igualdade de condições na competição pelo mercado, vetando privilégios para a importação de veículos desmontados ou produzidos no exterior com subsídios.”

A conferir se na quarta-feira algo será decidido. O que é impróprio e impertinente é o governo fechar-se em copas, deixar manifestação de quatro importantes fabricas sem a atenção devida, justamente quando negociações com o governo Trump estão sem desfecho e em suspense.

Carta de montadoras no Brasil a Lula