Colocado no ringue da acareação suspeita, BC precisa continuar firme

Toffoli certamente não ignora que uma ingerência dessa natureza no Banco Central possibilita que sejam lançadas luzes da desconfiança na autoridade monetária, e alimenta especulações que possam afetar a continuidade do processo de liquidação.
Decisões de Toffoli esbarram em conflito de interesses. Foto: Andressa Anholete/STF.

Demorou, mas o Banco Central (BC) agiu e decretou em novembro a liquidação judicial do banco Master, uma proeza financeira que crescia em ritmo alarmante e com pouca transparência nos ativos desde que Daniel Vorcaro, em 2017, adquiriu uma instituição menor e a transformou na marca que sacode o mundo político e jurídico em Brasília.

Agora, colocado no ringue de uma acareação suspeita, sob pressão, o BC precisa se manter firme para impedir reversão do trabalho técnico, evidenciando para a sociedade que a decisão de ofício do ministro Dias Toffoli, por contrariar ritos legais e colocar fiscalizador da regulação bancária e fiscalizado no mesmo patamar, é não apenas impertinente mas perigosa.

Derrotado no pedido de esclarecimentos sobe a acareação marcada para o dia 30 e sua possível revogação, o presidente da instituição Gabriel Galípolo agora estuda com o jurídico entrar com mandado de segurança para impedir acareação com o diretor de Fiscalização Ailton Aquino.

Antes, o BC quis saber sobre que divergências de versões existem para justificar a presença do diretor numa acareação, e sobre a condição de participação do funcionário de carreira da instituição: na condição de testemunha, investigado ou pessoa ofendida e se iria representando a instituição ou apenas a si próprio.

A arrogância dos magistrados do STF está tão fora de qualquer limite razoável que Toffoli nada antes havia deixado claro, e ao responder ao BC o fez em apenas três horas, mantendo o ritual que propõe equivalência entre mocinho e bandido. Ele também ignora apelos de quatro entidades do sistema financeiro e de auditores do Banco Central, as quais reagem estupefatas à decisão autoritária do magistrado, nunca antes vista no sistema financeiro nacional.

Mas o magistrado certamente não ignora que uma ingerência dessa natureza no Banco Central possibilita que sejam lançadas luzes da desconfiança na autoridade monetária, e alimenta especulações que possam afetar a continuidade do processo de liquidação, a estabilidade do FGC, a segurança dos investidores e o sistema bancário como um todo.

Mais: há rumores de que não se descarta a possibilidade de Toffoli reverter a decisão do Banco Central mesmo diante da fraude constatada superior a R$ 12 bilhões na negociação da venda do Master para o BRB, banco estatal de Brasília. Em uma canetada!

E como tudo é sigiloso, aí mora o perigo, não há da parte do ministro Toffoli necessidade alguma de explicar as razões de uma  acareação sem confronto de depoimentos porque inexistentes entre Daniel Vorcaro, dono do banco; Paulo Henrique Costa, ex-dirigente do BRB, e Ailton Aquino, direito de Fiscalização do BC.

O procedimento se tornou suspeito por 1) não seguir o caminho usual de uma acareação; 2) Não há ainda depoimentos prestados à PF, fase em que contradições poderiam ser constatadas para gerar acareação; 3) Ailton Aquino não é investigado; 4) Toffoli rechaçou rapidamente posição contrária da PGR à acareação considerada “prematura” por não obedecer etapas anteriores e não ter sido solicitada pela PF ou MPF; 5) Negou pedido do Banco Central para adiar o procedimento, estranhamente marcado no início das investigações e 6) A cereja do bolo da acareação suspeita é o sigilo total do processo do Master, injustificável tramitar pelo STF, após o ministro ter voado para Lima, no Peru, em avião de empresário e na companhia do advogado  Augusto Botelho, defensor de um dos executivos do Master.

Até agora, o BC – responsável por fiscalizar e regulamentar instituições financeiras – tem atuado com a seriedade que se exige, embora executivos de bancos e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) vinham fazendo alertas há tempos sobre o Master. O banco vinha usando sistema de seguro de depósitos para atrair clientes do varejo com CDBs remunerados até 140%, algo insustentável até para bancos tradicionais, que pagavam no máximo 100%.

E muitas ousadias mais, notadas por gerentes zelosos da Caixa Asset, que em parecer se recusaram a endossar a compra de um lote de R$ 500 milhões de letras financeiras do Master no ano passado por ser um negócio temerário.

As quatro entidades que divulgaram nota preocupadas com a interferência do ministro disseram que essa decisão abre a porta para que  “outros atores institucionais tenham a possibilidade de invalidar o mérito técnico de decisões do BC, rompendo um dos alicerces fundamentais do funcionamento do nosso sistema financeiro, com graves impactos para o próprio funcionamento da economia brasileira e enfraquecimento da autoridade financeira.”

É fácil adivinhar de quem falam. Políticos ligados a Vorcaro já temem um salve-se quem puder.