A política como ela é: a barganha com a CPMI do Master e veto à redução da pena de Bolsonaro

Alcolumbre e Motta condicionam análise dos vetos à redução da pena de Bolsonaro e seguidores ao fim da pressão pela instalação da CPMI do Master.
Davi Alcolumbre blinda o governo e o STF ao evitar a instalação da CPMI do Master. Foto: Geraldo Magela.

Como a cúpula do Congresso Nacional e boa parte dos legisladores, especialmente da esquerda, não querem apurar nada sobre o Master, os enrolados quase tanto quanto Daniel Vorcaro, senador Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB), que após o Carnaval nada de relevo encaminharam no Legislativo, estão a propor uma barganha, segundo edição desta segunda-feira, 23, do jornal Folha de São Paulo.

Marcam para o início de março a análise dos vetos do presidente Lula da Silva ao PL da Dosimetria, que permitirá reduzir de 6 a 8 anos para algo entre 2 anos e 4 meses e 4 anos e 2 meses a pena de Jair Bolsonaro em regime fechado, caso a pressão pela instalação da CPMI do Master seja encerrada.

A costumeira performance da política como ela é dá a receita clara para que os vetos do PL da Dosimetria sejam analisados em Plenário: esqueçam o banco Master, suas conexões com o centrão, com a direita e com a esquerda. Não vamos permitir, analisam os caciques em reuniões inúteis com lideranças partidárias porque só eles dão as cartas e mandam na Mesa Diretora, que o rumo dos acontecimentos saia do nosso controle, atinja alguns de nós.

Como se sabe, Alcolumbre é protetor do sujeito que colocou a grana da previdência de servidores do Estado do Amapá em fundo operado por Daniel Vorcaro no Master. Uma bagatela de R$ 400 milhões, o segundo valor entre as instituições de previdência abertas para a criminalidade de seus dirigentes na operação com o banco liquidado.  Um Estado pobre. Proibido de produzir.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), proeminência do centrão, apresentou emenda a um projeto que aumentava o limite do FGC para salvar aplicações de investidores de até R$ 1 milhão. Quanto ele ganharia de Vorcaro, que usava o Fundo para alavancar as vendas de CDBs, todos se perguntam.

É um nó danado essa barganha indecente porque a oposição já declarou que a derrubada dos vetos da Dosimetria é prioridade, mas também atua para ter a CPMI instalada, assinaturas ultrapassam o número de parlamentares exigidos. O dano causado pelo abuso de poder de Alexandre de Moraes estimula os mais insubmissos e indignados a exigir a investigação. Não esqueçamos do contrato de R$ 129 milhões da mulher do ministro com o Master, e as voltinhas dele na casa de Vorcaro, ainda sem explicação.

Em uma sessão conjunta para análise de vetos, será necessário também que Davi Alcolumbre leia o requerimento do deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e assim a instalação da CPMI seria consumada. Sem pressão, Alcolumbre segue a sessão conjunta sem sobressaltos e futuros problemas – basta não ler o requerimento.

É ano eleitoral e a oposição indica que não pretende perder a oportunidade de marcar o governo Lula com a digital do Master, que pode chegar além do que já foi descoberto: encontros  palacianos fora da agenda com Vorcaro, inclusive recebido por Lula; ministro da Justiça Ricardo Lewandowski prestando assessoria ao banqueiro, visto por Lula como algo normal; ex-ministro do PT Guido Mantega próximo a Lula também na folha de pagamento milionária do Master e chefe da Casa Civil Rui Costa e líder do Governo no Senado Jaques Wagner como operadores na Bahia de um negócio milionário estatal e estranho transferido ao sócio futuro de Vorcaro no banco.

Alcolumbre e Hugo Motta querem ganhar tempo, jogam com mudança no rumo dos ventos nada favoráveis ao vizinho STF, a quem também querem blindar, na figura dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que passaram, devido ao trabalho da imprensa, a ter escândalos para chamar de seu.

O trabalho da imprensa e da Polícia Federal ditará a movimentação da política como ela é, o que inclui a possibilidade da oposição fazer acordo.