Durigan diz que PEC que dá autonomia ao BC cria um “novo poder”

Governo está preocupado porque bilhões de reais de recursos oriundos da emissão de moeda deixariam de ir para o tesouro nacional, ficando no BC. Com autonomia plena, autoridade monetária deixa de ser vinculada a qualquer órgão do Estado.
Ministro Dario Durigan, da Fazenda. Foto: Washington Costa/MF.

Aprovada na semana passada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 65/2023) que concede autonomia financeira e orçamentária ao Banco Central foi criticada nesta quarta-feira, 17, pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, durante participação em audiência pública na Câmara dos Deputados.

O ministro argumentou que não se pode, a pretexto de fortalecer o Banco Central, criar “uma série de distorções” na contabilidade da autoridade monetária do Brasil, assim como no processo de auditoria do BC.

“É preciso fortalecer, sim, a instituição do Banco Central, assim como outras agências, sem que a gente tenha uma espécie de novo Poder da República, que pode mandar projeto de lei, que não se submete à auditoria da Controladoria-Geral da União [CGU]”, disse o ministro ao responder a perguntas de parlamentares.

A PEC 65 de 2023 já pode ser votada em Plenário. Ela estabelece autonomia administrativa, contábil, orçamentária, financeira, operacional e patrimonial ao BC  sem que esteja subordinado a qualquer ministério ou qualquer outro órgão ou sistema da administração pública. Hoje o BC é subordinado ao Ministério da Fazenda.

O ministro diz que as mudanças previstas no texto são preocupantes.  “Até, inclusive, para a proteção do Banco Central, que acho que tem que estar bastante dentro das regras do jogo”, completou.

O texto aprovado pela CCJ permite que  o BC retenha, no seu orçamento, receita própria criada pela senhoriagem (recursos oriundos da emissão de moeda). Atualmente, esse tipo de recurso é transferido para o Tesouro Nacional.

A receita da senhoriagem foi de R$ 23,3 bilhões, ao ano, entre 2017 e 2025, enquanto o orçamento do BC foi de R$ 4,8 bilhões, ao ano, no mesmo período.

Uma das preocupações do ministro são a perda dessa receita para os cofres do tesouro nacional.

Cooptação do BC

Um manifesto foi publicado por economistas do país com o argumento de que a PEC facilita a cooptação do BC pelo setor financeiro, fiscalizado e regulado pela autoridade monetária, além de favorecer ainda mais a manutenção dos altos juros no Brasil.

“A PEC cria independência seletiva: afasta o BC do controle democrático do Estado [Congresso, Tribunal de Contas da União, Executivo], mas o mantém estruturalmente poroso às influências do mercado financeiro. Perdem-se os freios dos poderes constituídos e os canais de acesso do setor privado continuam abertos”, diz o manifesto.

O documento alerta para a fragilização da fiscalização, do controle social e a responsabilização do Banco Central e aumento da dívida pública.  Alerta ainda para a criação de um modelo único no mundo que reúne autonomia financeira e operacional da autoridade monetária.

Com Agência Brasil.