No dia seguinte à prisão de Daniel Vorcaro e mais quatro pessoas com ele envolvidas em crimes detalhados ao ministro André Mendonça pela Polícia Federal, conversas privadas do celular-bomba do banqueiro vem à tona. Em uma delas, de 2024 revela a CBN, Vorcaro qualificou o senador Ciro Nogueira Nogueira (PP-PI), como um ‘grande amigo de vida’ e celebrou emenda do parlamentar a um projeto que favorecia o Banco Master: a ampliação do limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O FGC é um fundo que resulta da contribuição privada de instituições financeiras para assegurar aos investidores segurança do dinheiro caso algum banco venha a falir ou ser liquidado, caso do Master. Vorcaro utilizava o FGC para alavancar suas carteiras de crédito fraudulentas e turbinar ativos financeiros sem liquidez, segundo as investigações da Polícia Federal.
A emenda de Ciro Nogueira foi apresentada à PEC que tratava da autonomia orçamentária do Banco Central, que acabou por não ser contemplada em texto final do Congresso. Ela sugeria elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para um R$ 1 milhão por depositante.
O senador do Centrão também defendia que o FGC deixasse de ter gestão privada, passando para a gestão do Banco Central.
O setor bancário não recebeu bem a ideia, avaliando, segundo a CBN, que a mudança poderia elevar custos e alterar o funcionamento do sistema de garantia de depósitos.
Ciro Nogueira, em sua defesa a respeito da amizade com Vorcaro, disse que ‘mantém diálogos por mensagens com centenas de pessoas, o que não o torna próximo apenas por, eventualmente, interagir com elas’.
A decisão que autorizou a operação, do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, citou a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos da PF, MPF e até da Interpol.
Além de Vocaro, também foi preso o cunhado dele, o empresário Fabiano Zettel, e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, chamado de Felipe Mourão e conhecido por ‘Sicário’, apontado como responsável por planejar ataques contra adversários do banqueiro. Ele morreu horas depois da prisão em hospital de Minas Gerais, após ter aparentemente tentando “tirar a própria vida” na cela da sede da Superintendência da Polícia Federal, noticiou a imprensa. A Polícia Federal diz que vai abrir procedimento para investigar essa ocorrência. “Sicário” tinha extensa ficha de crimes.
A Secretaria de Saúde de Minas Gerais afirmou que ele esteve sob cuidados no CTI do Hospital João 23, onde teve morte cerebral constatada. Luiz Phillipi executava ordens de monitoramento de alvos, extração ilegal de dados em sistemas sigilosos e ações de intimidação física e moral, mas agia com base em informações que obtinha do próprio Vorcaro mas especialmente do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, que segundo a decisão de Mendonça tinha acesso a informações das investigações em andamento.
“Marilson foi identificado nas investigações como integrante relevante da estrutura paralela de monitoramento e intimidação vinculada ao grupo liderado por DANIEL BUENO VORCARO. Elementos colhidos durante a investigação indicam que o investigado integrava o grupo informalmente denominado “A Turma”, organização destinada à obtenção clandestina de informações sigilosas, e monitoramento de indivíduos considerados adversários do grupo,” relata o documento sobre a conduta individualizada dos alvos da operação de quarta-feira, 4.
Segundo ainda documento que traz a decisão do relator, o policial aposentado “atuava como um dos principais operadores desse núcleo de coerção, utilizando sua experiência e contatos decorrentes da carreira policial para auxiliar na obtenção de dados sensíveis e na realização de atividades de vigilância e monitoramento de alvos definidos pela organização criminosa. Sua participação era voltada à coleta e compartilhamento de informações que pudessem antecipar ou neutralizar riscos decorrentes de investigações oficiais ou da atuação de jornalistas, ex-funcionários e outros indivíduos considerados críticos às atividades do grupo.”
A Segunda Turma do Supremo vai avaliar se mantém a prisão de Vorcaro a partir do dia 13 de março.