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Na estreia de depoente, palanque político passou ao largo da CPI

Na estreia de depoente, palanque político passou ao largo da CPI

Mesmo com alguns embates na parte da manhã entre senadores governistas e de oposição, o que é do jogo, a CPI da Covid-19 manteve por mais de sete horas um ritual sereno e protocolar, com o cumprimento do que o presidente do colegiado, senador Omar Aziz, anunciara por meio da imprensa: o exercício de um trabalho técnico.

Contribuiu, e muito, para que a inquirição feita ao ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta não tenha resvalado para a política como se costuma verificar em comissões parlamentares de inquérito, ainda mais em ano pré-eleitoral, a posição do médico, que embora seja pretenso candidato à sucessão de Jair Bolsonaro em 2022, se manteve rectilíneo, apoiando-se sempre na ciência para embasar decisões tomadas em sua gestão no Ministério da Saúde.

Claro, porém, que também fez política, com a sutileza das palavras que sabe bem manejar, sem cair no lugar comum das declarações contundentes, frases feitas para gerar manchetes bombásticas, para holofotes, sem acusações objetivas apontadas ao ocupante da cadeira presidencial e sem adjetivações inconsequentes, próprias de palanque eleitoral, até porque, a rigor, não existe a menor necessidade.

Se há alguém que contribuiu para que o presidente Jair Bolsonaro seja o recordista em pedidos de impeachment – parece que passam de cem – e reúna farta prova de omissões no seu dever constitucional perante a crise sanitária é ele mesmo.

Em suas lives ou aparições para eleitores, declarações para a mídia, em eventos ou nas publicações próprias em redes sociais oficiais, Bolsonaro o tempo todo se mostrou negacionista e sabotador das medidas de prevenção ao enfrentamento do novo coronavírus que seu primeiro e competente ministro tentava levar adiante.

Tudo é público, e se há algo que facilita o trabalho técnico e mesmo político da CPI é a ausência de hipocrisia em Bolsonaro e sua instigante capacidade de produzir “provas” contra si mesmo.

Indo além de tudo que já se sabe público, reafirmado e por vezes acrescentado por Mandetta na sabatina feita pelo relator e senadores, no exame de papeis robustos guardados no cofre da CPI, os que chegam e com a oitiva de novos depoentes, a CPI terá, e não apenas por atuação do presidente, um novelo de maldades promovido pelo governo federal para destrinchar mais detidamente.

E vai conferir, se quiser de verdade investigar, que o negacionismo presidencial teve método e, com Eduardo Pazuello, aquele que recuou na compra de vacina dizendo “um manda o outro obedece,” o método ganhou o operador que se precisava para por em marcha a cartilha de atuação daqueles que fazem nas palavras de Mandetta “aconselhamento pessoal” de Bolsonaro contra a ciência, a saúde pública e contra as instituições – leiam-se aqui governantes, homens da justiça e parlamento -, contribuindo para ter gerado a escalada de mortes pela Covid e legião de sequelados no Brasil.

Parte deste método, a ação de ignorar ele próprio o uso da máscara e até fazer transmissão ao vivo nas redes sociais pregando ser “uma ficção” o uso do equipamento, “prejudicial à saúde da pessoa” – e isso no final de dezembro, na segunda onda da pandemia, mais violenta -, orbitou a indagação da senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA).

Estupefata, dizia não entender o que passa “na cabeça de Bolsonaro não usar máscara, não defender seu uso.”

Henrique Mandetta disse que possivelmente o maior problema do presidente Bolsonaro “não esteja na cabeça, mas no coração,” e que “não acha inteligente expor as pessoas ao vírus.”

Talvez tenha sido a declaração mais política e contundente de todas em mais de sete horas de depoimento.

Para concluir, Renan Calheiros (MDB-AL), o relator, fez sua lista de perguntas centrado, contido, nada passional na sessão. Deu sua contribuição para que a política não elevasse a temperatura de forma inadequada, e até pediu desculpas.

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