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Prefeito, cacarejar sem botar o ovo é imperdoável nos dias que correm

Prefeito, cacarejar sem botar o ovo é imperdoável nos dias que correm

Hildon Chaves e a promessa feita no dia 12 de março.

Quando a galinha bota ovo ela faz barulho. Cacareja. Exibe o produto do seu esforço, recompensado.Ela anuncia um espetáculo da natureza.

Agora vamos imaginar uma galinha que cacareja, cacareja mas não bota o ovo. O que será que acontece? Está colocando em descrédito um trabalho iniciado, arrumando encrenca com galos e galinhas, colocando em risco o futuro em que logo dirão que ela não alcança resultados, promete mas não vai até o fim.

Lembrei disso para dizer que há alguns anos ouvi uma palestra sobre marketing em que o instrutor falava da importância de anunciar um feito, mas que tanto em corporações privadas quanto nas instituições públicas é preciso o desvelo de combinar as duas tarefas, se pronunciar e fazer a entrega do que é prometido. Não se pode apenas cacarejar ou apenas e silenciosamente botar o ovo. Dá ruim.

Na política, esse recado deve ser seguido ao pé da letra nos dias que correm, dias arredios a uma atividade humana de relevo, que impacta a vida de todos, quando a sociedade brasileira está descontente e tem exigências crescentes, não mais contemporizando com prefeito ou governador que faz política inconsequente, que promete mas tem pouca ou quase nenhuma capacidade de execução.

Certamente o prefeito Hildon Chaves está ansioso como todo mundo, querendo mais vacinas para a população de Porto Velho, consagrado que foi para conduzir os destinos da capital pela segunda vez, inclusive com meu voto.

Porém, diante da gravidade incontrolável da pandemia, é reprovável anunciar prazo para entrega de tão ansiada mercadoria, gerando expectativa imensa entre seus eleitores e não eleitores, e acabar frustrando a todos. Nas redes sociais, a esculhambação é geral: não há quem compreenda o fiasco. Bem provável que tenha lhe faltado assessoria.

No dia 12 de março, portanto há mais de um mês, em coletiva de imprensa – mais grave ainda – Hildon Chaves anunciou a compra de 400 mil doses de vacinas para imunizar 200 mil moradores da capital, do laboratório AstraZeneca, e disse que os imunizantes estariam disponíveis em 30 dias. Sem dúvida iniciativa elogiável, mas cercada de desconfiança – ao publicar texto sobre o anúncio, recebi mensagens tipo “só acredito vendo”, “conversa pra boi dormir” e por aí vai.

Autorizado por lei a promover esta despesa, antes restrita à União, o prefeito pecou ao oferecer um prazo, inclusive cantando em verso e prosa que logo as pessoas com 30 anos seriam vacinadas. O prazo venceu e a entrega não aconteceu. Ou seja: o prefeito matou a cobra mas não mostrou o pau. Cacarejou mas não entregou.

Àquela altura, a guerra por vacinas, uma segunda guerra dentro do enfrentamento da pandemia, estava em curso, todos sabem, e o próprio Brasil, navegando contra a maré desde quando começaram as discussões sobre contratos com farmacêuticas, ainda em meados do ano passado, ficou a ver navios, como se diz, sem ter estoque para o Programa Nacional de Imunização (PNI) em quantidade que corresponda ao tamanho e importância de um país como o nosso.

O prefeito era consciente disso. Tanto que quando anunciou antes a compra de 80 mil doses que também não se concretizou, disse em uma rádio que a condução da pandemia pelo governo central era errática, porém tinha que respeitar o PNI.

Depois, em 17 de março, foi sancionada lei que permite ao prefeito comprar as 400 mil doses sob duas condições: na hipótese de ocorrer o “descumprimento, pelo governo federal, do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19” ou ainda caso o “plano não proveja cobertura imunológica tempestiva e suficiente contra a doença,” observadas as legislações federal e estadual pertinentes.

Claro que estamos num barco à deriva, com a vergonha de figurar em ranking com um dos piores indicadores de baixa vacinação, as duas condições acima estão postas, é preciso mesmo correr atrás e fazer valer a iniciativa do município de conseguir as vacinas.

Nada impediria que na coletiva de 12 de março o prefeito anunciasse a intenção, alicerçada em documento que fortalecesse a transação iniciada, mas a cautela seria boa companheira, sendo adequado dizer aos jornalistas não ser possível garantir uma data para recebimento das vacinas, explicando as razões.

Na coletiva, houve a exibição de um documento que nem mesmo no portal da prefeitura explica do que se trata, e depois, no primeiro dia de abril, um personagem surge no enredo da compra das vacinas: Marcelo Thomé, presidente da Federação das Indústrias de Rondônia, que acumula também o cargo de dirigente da Agência de Desenvolvimento de Porto Velho.

Thomé disse que uma carta de crédito teria sido enviada no último dia de março para um fornecedor (representante comercial) do laboratório AstraZeneca, que daria aceite no documento, e uma conta foi aberta no Banco do Brasil para se efetivar a compra. O custo de cada dose é de U$ 7,90, e a prefeitura investe R$ 20 milhões.

Na entrevista de Thomé à Rede Amazônica não se esclareceu em qual região está localizado o representante comercial e como é o nome da empresa. Seria bom que o distinto público tivesse as informações. Garantiu que a Procuradoria do Município acompanha tudo.

Um novo prazo está dado, 15 de maio. Uma sombra cinzenta paira sobre nós, e tomara que não passe disso, pois em comunicado veiculado dia 13 a AstraZeneca disse que não pode disponibilizar vacinas para governos estaduais e municipais do Brasil. O laboratório está comprometido com acordos firmados bem antes com países e organizações multilaterais.

O representante comercial não é o laboratório. Ele é um ente confiável, investigado por técnicos do município, e há de nos enviar as vacinas. Foi o que disse Thomé. É crer para ver.

Prefeito Hildon, não faça como o inominável Eduardo Pazuello – na mira do TCU, que em sua conduta vê graves omissões na pandemia. O ex soldado do chefe da Nação em dois meses mudou a data de início da vacinação nada menos do que cinco vezes.

O senhor faz entregas, mostrou isso no primeiro mandato. Cacarejar a toa é imperdoável.

 

edição feita às 14h58, em 15/4 para correções.

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