O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira, 16, durante encontro com a imprensa, que o presidente Donald Trump “exigiu a capitulação” do Brasil durante as negocições sobre a nova tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos a produtores brasileiros. Como o Brasil não teria cedido às pressões, o tarifaço foi confirmado.
“O que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações”, disse Vieira, em declaração de duas páginas lida por ele a jornalistas no Palácio do Itamaraty.
Uma das pretensões, citou, estava centrada em “demandas de abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros. Em outras palavras, exigiam uma capitulação.” O ministro não cita na declaração quais seriam esses setores.
“Não custa reiterar que os Estados Unidos acumularam US$ 424 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos. Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos dos Estados Unidos importados pelo Brasil,” diz trecho da declaração.
Na declaração, Vieira apresenta um balanço das negociações feitas entre o governo brasileiro e autoridades norte-americanas.
“As investigações da Seção 301 são procedimentos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não há justificativa para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros. Desde março de 2025, o governo brasileiro manteve mais de 30 reuniões presenciais, virtuais ou por telefone, nos níveis presidencial, ministerial e técnico com autoridades norte-americanas. Somente com Jamieson Greer e o Marco Rubio foram realizados 11 contatos, incluindo as reuniões entre Presidentes,” declarou.
“O Brasil está, portanto, negociando com os Estados Unidos desde antes do tarifaço original, anunciado em 2 abril de 2025. Nesse próprio dia 2 de abril, antes do anúncio das tarifas, eu mantive uma chamada telefônica com o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Naquele momento, o Brasil foi tarifado em 10%, o menor nível de tarifas aplicado pelos Estados Unidos a qualquer país. Após a carta do Presidente Trump ao Presidente Lula, de 9 de julho de 2025, as ta
rifas foram elevadas a 50%, por expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro,” afirma o documento.
Segundo o ministro, foi justamente nessa carta – em que o Presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-Presidente da República não fosse imediatamente interrompido – que foi dada a instrução ao Representante de Comércio dos Estados Unidos Jamieson Greer para que iniciasse a investigação sob a Seção 301 contra o Brasil.
O ministro também falou sobre publicação nas redes sociais feitas por Marco Rubio, secretario do Departamento de Estado norte-americano. Vieira as qualificou de inaceitáveis, ofensivas ao povo e ao governo brasileiro.
“Rubio ataca de forma grosseira e arrogante o chefe de Estado de um país amigo. Claramente o que incomoda o governo dos EUA é o fato do Brasil não ter se curvado às petensões desmedidas e deandas irrazoaveis apresentadas no curso das negocições,” disse.
No X, Rubio disse que o “presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé.” “Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso,” publicou.
Vieira falou ainda sobre alegações americanas em relação ao PIX e o desmatamento, e concluiu dizendo que “todas as alegações dos americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade.”