A exploração de minerais estratégicos no Estado do Amazonas já nasce sob controle estrangeiro. Seja na fase de estudos internos ou licenciamento. É o que revela reportagem de Waldick Junior, publicada no site A Crítica.
O jornalista relata dois exemplos: o da empresa BBX do Brasil, subsidiária da australiana BBX, que lidera um projeto mineral em Apuí, no sul do Estado, e o da Mineradora Taboca, na cidade de Presidente Figueiredo, conhecida por inúmeras cachoeiras, vendida em 2024 para a empresa chinesa CNMC. O projeto da primeira avança, o da segunda se constitui em estudos iniciais voltados à exploração das chamadas terras raras (minerais estratégicos) na região.
O Brasil possui a segunda reserva mundial -há quem diga ser a primeira –, e o Amazonas se destaca como o segundo Estado, de acordo com nota técnica do governo estadual, com mais reservas raras identificadas. O primeiro é Minas Gerais, e Goiás aparece como terceiro maior potencial do país.
Os minerais estratégicos incluem 15 elementos da família dos lantanídeos na tabela periódica, além do escândio e do ítrio. É preciso ser encontrado em concentrações viáveis para que seja economicamente positiva a extração deles.
Segundo a Crítica, a BBX está em processo de licenciamento para a atividade por meio do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). A exploração é estimada para começar em 2027. A Taboca já atua na produção de estanho e ligas de Nióbio e Tântalo, e tem estudos internos que apontam a ocorrência de terras raras na Mina de Pitinga.
O investimento estrangeiro na exploração de minerais estratégicos não é exclusivo do Amazonas. O diretor da Divisão de Minerais Críticos e Estratégicos da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mariano Laio, afirma que a maioria dos projetos no Brasil segue apoiado no capital estrangeiro.
Em Goiás, por exemplo, em Minaçu, norte do Estado, os Estados Unidos aprovaram investimento de mais de 400 milhões de dólares para a segunda etapa de expansão de Minaçu, e mais 5 milhões de dólares para investir em pesquisa em Nova Roma. A região tem depósito de argila iônica, com concentrações significativas de ETRs leves (Neodímio (Nd) e Praseodímio (Pr)) e ETRs pesadas (Disprósio (Dy) e Térbio (Tb)), muito valorizados no mercado global por suas aplicações em tecnologia e energia limpa.
Segundo declaração de Laio à Crítica, a ANM já identificou mais de 60 projetos que estão em andamento no país, e muitos deles com empresas estrangeiras participando, aportando recursos. “Não posso dar um percentual exato agora, porque todo dia descobrimos projetos novos, mas posso dizer que a maioria é de capital estrangeiro”, declara Mariano Laio.
Dominação
Doutor em Geografia Humana, Marcos Castro avalia que a forte presença de empresas estrangeiras no setor mineral reproduz um comportamento que já se desenvolve há séculos.
“Uma das formas de obtenção de riqueza por parte de uma determinada nação é justamente se instalar em um país para extrair o que tem de riquezas. E sempre com aquele argumento da geração do emprego, da geração de impostos para o país, enquanto se extrai as riquezas dali”, diz.
A China faz muitos negócios com outros países na área econômica, incluindo mineração. Castro considera que a tática também ajuda a explicar como a nação se tornou a segunda maior potência mundial, atrás dos Estados Unidos, que faz o mesmo. “O estabelecimento de empresas em outros países é um tônus geopolítico de dominação”, acrescenta.
Para o geógrafo, o cenário atual de maior interesse pelas terras raras coloca o Brasil e a Amazônia no centro da disputa mundial. “Temos uma briga entre China e Estados Unidos e o nosso país é um dos palcos disso”.
No caso do Amazonas, a BBX prevê exportação de terras raras para os norte-americanos, europeus e, talvez, chineses, como registrou A Crítica em reportagem anterior. Já a Taboca tem um projeto menos avançado neste campo e, por isso, não tem informações públicas sobre futuros mercados, mas é controlada por capital chinês.
Amazônia e cobiça
Para o doutor em Sociologia Cleiton Maciel, a Amazônia está colocada em risco com o cenário global de disputa por terras raras. O território, lembrou ele, desperta o interesse de outros países há décadas, mas afirma que a questão ganha outra dimensão no momento em que os Estados Unidos decidiram ampliar sua influência sobre a América Latina.
“A Amazônia, que sempre foi alvo de cobiça internacional, a começa a ser o objeto também de dominação por parte dos países. Então, talvez, no primeiro momento, a gente tenha a chegada dessas empresas para fazer essas explorações, mas se os arranjos institucionais do Brasil entrarem em choque, essa dimensão das empresas, em si, vai ceder à pressão nas nossas regiões, inclusive militar”, avalia.
Na visão dele, o Brasil precisaria de um adensamento maior do parque industrial. A ideia vai na linha do que também defende a economista doutora em Desenvolvimento Regional, Michele Aracaty. Ela lembra da cidade de Coari, onde a Petrobras explora petróleo há mais de 30 anos, no Amazonas.
“O quanto Coari mudou depois desse tempo todo? A cidade ainda vive os mesmos dilemas de décadas atrás. E estamos falando do caso de uma empresa brasileira. A preocupação com isso é ainda maior quando se fala de capital estrangeiro”, alerta.
É preciso que o Brasil pense nas consequências dessas atividades, diz a especialista, e não olhe apenas para o curto prazo. “Se for para eles virem aqui somente para explorar e ficarem cada vez mais ricos e a nossa região não ser beneficiada com essa atividade, não está valendo”, diz Aracaty.
Muito dinheiro
O diretor da Divisão de Minerais Críticos da ANM, Mariano Laio, diz que o investimento mediante capital estrangeiro tem sido o caminho possível devido aos altos custos de investimento na atividade de exploração dos minerais estratégicos, cujo processo de extração e separação é complexo, caro e poluente.
“Você precisa de investidores com perfil para aceitar risco. A gente tem estudos que mostram que de uma faixa de 500 a 1 mil requerimentos de pesquisa que pedem para avaliar uma área, apenas um vira realmente uma mina. Os outros são tiro na água. Ou seja, é investimento que se perde. Outra coisa é o tempo. Alguns demoram 15 anos para produzir. A gente não tem capital nacional suficiente para isso”, explica ao site A Crítica.
O secretário de Desenvolvimento Econômico Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti-AM), Serafim Corrêa, diz que o Estado apoia a atuação da BBX e Taboca e espera que outras empresas venham para a região.
“O que esperamos é ter uma exploração mineral racional, ecologicamente correta, com a menor agressão possível ao meio ambiente a gente possa usufruir disso. Vamos usufruir através de empregos, de impostos e de oxigênio em toda a nossa economia”, avalia.
Empregos e royalties
Líder do projeto da BBX no Amazonas, o diretor técnico Antônio de Castro diz que não existe empresa estrangeira atuando no Brasil em mineração. “Se você tiver interesse, precisa de uma empresa constituída no país. Os investidores, sim, podem ser de outro país”, afirma, se referindo ao caso da companhia onde atua.
O executivo da BBX destaca que a exploração no Amazonas prevê a geração de pelo menos 200 empregos diretos e outros mil indiretos. E há o recolhimento de impostos aos cofres públicos que poderá se converter na execução de políticas públicas para a população.
O principal é a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), 60% destinado a o município. Presidente Figueiredo hoje recebe R$ 18 milhões por ano de royalties. “Nós estimamos que Apuí vai receber em torno de R$ 12 milhões. Isso torna o município muito menos dependente de recursos federais ou emendas. Deixa a prefeitura mais segura, sem depender de pedido de esmola”, comenta.
Em nota para a reportagem de A Crítica, a mineradora destacou que o fortalecimento de cadeias produtivas locais é um dos pilares estratégicos da atuação no Amazonas. “Os estudos relacionados ao potencial de minerais estratégicos no Estado, incluindo elementos associados às chamadas terras raras, vêm sendo acompanhados pela Mineração Taboca no contexto das atividades de pesquisa mineral já realizadas na região da Mina de Pitinga, localizada no município de Presidente Figueiredo”, afirma.
O novo ciclo de investimentos, segundo a companhia, prevê a aplicação de US$ 100 milhões até 2028 em pesquisa mineral, modernização de plantas de beneficiamento e ampliação das fundições. A estratégia se alinha ao objetivo de ampliar a competitividade da operação na Mina de Pitinga, ao mesmo tempo em que impulsiona o desenvolvimento regional.
Já a operação da Mineração Taboca conta com cerca de 3 mil empregados diretos, sendo aproximadamente 80% provenientes das regiões Norte e Nordeste, diz o site. A companhia também atua na formação e capacitação de profissionais.
A Taboca trabalha na produção de estanho e ligas metálicas de nióbio e tântalo, matérias-primas essenciais para a indústria eletrônica, transição energética e descarbonização. “Além disso, a ocorrências de terras raras na mina de Pitinga apresenta um potencial para o desenvolvimento tecnológico e econômico da região. Nossa estratégia vai além da extração; transformamos o potencial geológico brasileiro em vantagem tecnológica ao integrar Institutos de Ciência e Tecnologia locais que desenvolvem processos industriais desde o tratamento do mineral até novas aplicações para esses metais”, consta em nota.