Leio no Estadão matéria com o título “Lula faz acordo com Ciro para apoiar Motta à frente da Câmara em 2027 e tenta pacto com Alcolumbre.”
Trecho inicial diz: “Se vencer a disputa de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalizará mais uma gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB) à frente da Câmara, mas também pretende dar respaldo a Alcolumbre, desde que ele colabore com o Palácio do Planalto.“
Diz também a matéria que nesse acordo com o Centrão- tratado no jantar na casa de Alexandre de Moraes – a participação de Ciro Master Nogueira, liderança maior do PP e senador do Piauí, é central.
Basicamente, em relação a Ciro Master Nogueira, aliado e padrinho político de Motta na presidência da Câmara, Lula promete aquietar o PT do Piauí para não atrapalhar a campanha à reeleição do senador.
Como contrapartida, Ciro Master Nogueira não fará mais oposição a Lula. Uma oposição mequetrefe, diga-se de passagem.
A matéria continua: “A garantia dada por Lula ao senador, alvejado pelo escândalo do Banco Master, foi um dos fatores que pesaram para que o PP e o União Brasil de Alcolumbre – unidos em uma federação – decidissem pela neutralidade nas eleições de outubro. Na prática, todo o Centrão se descolou da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto.”
Essa garantia, óbvio, não é vista com tanta credulidade nem credibilidade. Até porque será que para o União Progressista Ciro Master Nogueira está com essa bola toda?
Há que se considerar ainda que Lula e PT expressm hoje uma fadiga de material enorme na sociedade, basta ver a alta rejeição do petista, propostas ultrapassadas e demagógicas, mais do mesmo, falta de compromisso com as contas da Nação, maior juro real do mundo, falta de vontade em usar a repressão do Estado – e só o Estado está autorizado a isso – para conter as facções criminosas, retórica sobre o feminícidio aliada à incapacidade de convencer a Federação a se comprometer com a vida das mulheres etc. E quase 60% do eleitorado acham que o país está no rumo errado.
O Centrão sabe entretanto manejar o poder com Lula e o PT porque já demonstraram, não pairam dúvidas por causa do conjunto da obra, não ter energia real de transformação do Brasil mediante políticas que promovam mudanças estruturais para levar o país ao crescimento que a sociedade demanda.
O único projeto é o de poder. Bradar lemas para solapar a democracia e cindir a sociedade é parte disso. É mais fácil manipular grupo eticamente insanável, que ruge como leão mas é flexível como um gatinho. Entrega tudo.
Eles jogam o jogo sem ao menos tentar mudanças, tanto que decidiram por apoiar Arthur Lira, outro enrolado, para presidir de novo a Câmara já na transição. Nem ao menos cogitaram lançar nome. Decidiram respaldar o orçamento secreto, revelado pelo Estadão, e em montante bem mai$ sub$tantivo.
Lira, o que disse numa entrevista para O Globo em fevereiro de 2021: “Nós vamos buscar o comando do Orçamento.” Cumpriu o que prometeu. O PT e Lula apoiaram, se lambuzaram e depois reclamaram. Santa hipocrisia!
E como fica o STF com o acordo que depende do resultado da eleição, acordo em que se tiver o Lula 4 o lulopetismo quer trazer o “Congresso Inimigo do Povo” de volta?
Lema usado na votação que aumentava o IOF, acertadamente rejeitado pelo parlamento, na derrubada de vetos diversos o ano passado, na votação rejeitada de Jorge Messias, na escala 6×1 etc.
Bem, parte dele ao menos fecha com Lula nesse acordo. Alexandre de Moraes, o “guardião da democracia,” nunca censurou o lema usado com força na votação do IOF. Relator de ações sobre o IOF na Corte, disse que o governo extrapolava sua competência, mas salvou decreto de Lula sobre a matéria rejeitada no parlamento. Usou de interpretação criativa da lei.
O ministro, considero eu, é um dos que – nem preciso nominar os demais – topam o acordo. Predomina hoje na Corte não a razão institucional de sua existência, mas a razão individual da atitude de seus membros.
Vamos raciocinar: ele e outros ficam a salvo de possível impeachment caso o comando do Congresso permaneça nas mãos do Centrão, leia-se Hugo Motta e Alcolumbre. É uma troca. Os freios e contrapesos atuando a favor deles.
Não custa lembrar também que cronistas da imprensa respeitáveis, como Malu Gaspar, relataram que os ministros desse grupo disseram a membros destacados do Centrão para não se aliar a Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. Uma coação sutil?
O texto não tem a força da televisão. Esse é mais um escândalo de parte da turma do STF que sobrepõe a razão individual ao interesse da instituição e do país, normalizado, sem merecer reprimenda e barulho do meio quente e ainda influente.
Por isso, Ciro Master Nogueira, a menos que Lula perca a eleição, está a salvo por enquanto de explicar à justiça sobre o recebimento de R$ 300 mil de mesada de Daniel Vorcaro e outras coisas mais.
Davi Alcolumbre também está a salvo de tudo, e depois de ouvir queixas de Lula no jantar, saiu do encontro antirepublicano dizendo à imprensa que a conversa de tão entusiastas democratas é “segredo.”
Lula, Motta, Nogueira, Alcolumbre e o naco do STF precisam apenas combinar com os russos o resultado das urnas para o parlamento. O lema Congresso Inimigo do Povo quiçá estrepitosamente depois das eleições passe a ser Congresso Inimigo do PT. Esteja Lula ou não no poder outra vez.