PF prende pai de Daniel Vorcaro e mais seis na 6ª fase da Operação Compliance Zero

Henrique Vorcaro seria membro ativo da Turma, com "posição de relevo como demandante dos serviços ilícitos e operador financeiro dos pagamentos destinados ao grupo." 
Henrique Vorcaro trocava de celular o tempo todo. Foto: Reprodução/Facebook.

A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira, 14, sexta fase da Operação Compliance Zero, Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro e mais seis pessoas investigados por ações desencadeadas por dois grupos criminosos – A Turma e Os Meninos – vinculados à organização criminosa liderada pelo dono do banco Master.  Os mandados de prisão preventiva foram autorizados pelo relator do caso Master, ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Mendonça explicou que a decisão busca impedir a continuidade das atividades ilícitas e preservar a integridade das investigações, diante de indícios de ameaça a testemunhas, destruição de provas e risco de fuga. As medidas foram determinadas no âmbito da Petição (Pet) 15978, que apura denúncias de fraudes bilionárias no mercado financeiro supostamente articuladas pelo Banco Master e por seu controlador, Daniel Vorcaro.

A Turma, segundo a PF, é o grupo situado na organização criminosa responsável pela prática de ameaças, intimidações presenciais, coerções, levantamentos clandestinos, obtenção de dados sigilosos e acessos indevidos a sistemas governamentais. Os investigadores, em outra etapa da operação, identificaram plano para intimidar e ameaçar o colunista Lauro Jardim, de O Globo.

O grupo Os Meninos, relata a decisão de Mendonça, teria perfil eminentemente tecnológico e seria vocacionado à prática de ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis
e monitoramento telefônico e telemático ilegal. Ambos os grupos, segundo a representação da PF, eram comandados por Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, que morreu após ser preso em cela da Superintendência da Polícia Federal.

Segundo relata a decisão, os grupos continuaram as atividades ilícitas mesmo após a realização de operações anteriores da Compliance Zero e prisão de Vorcaro: “novos elementos reunidos
demonstram a persistência das atividades ilícitas mesmo após as fases anteriores da Operação Compliance Zero, bem como a identificação de novos integrantes e o maior detalhamento da divisão interna de tarefas do grupo.”

Henrique Vorcaro seria membro ativo da Turma, com “posição de relevo como demandante dos serviços ilícitos e operador financeiro dos pagamentos destinados ao grupo.”  A PF relata que ele tinha conversa ativa com o pessoal do grupo, e que trocava de celular o tempo todo, tendo registrado inclusive número na Colômbia. O policial aposentado Marilson Roseno da Silva, por exercer a liderança operacional desse grupo, foi encaminhado ao sistema penitenciário federal a pedido da PF.

O jornal Folha de São Paulo descreve Henrique Vorcaro como fundador do grupo imobiliário Multipar, que teria construído trajetória nos setores de imóveis e administradoras empresariais, com participação em operações de grande porte. Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indica que a empresa da família movimentou cerca de R$ 1 bilhão em transações consideradas atípicas entre contas ligadas ao dono do Master. O conselho identificou que a movimentação sugere uma tentativa de esconder o patrimônio.

De acordo com as investigações, Henrique Vorcaro era o principal operador financeiro e responsável por repassar ao grupo as ordens de Daniel Vorcaro, inclusive durante o andamento das fases da operação.

Também integravam o núcleo Manoel Mendes Rodrigues, acusado de comandar um braço da organização no Rio de Janeiro, apresentado como “empresário do jogo” naquele Estado ; Sebastião Monteiro Júnior, policial aposentado; e Anderson Wander da Silva Lima, policial federal em atividade na Superintendência Regional da PF no Rio. Todos presos.

O grupo Os Meninos era comandado por David Henrique Alves, apontado como responsável por arregimentar operadores com perfil hacker, remunerados para execução de monitoramentos ilícitos, ataques digitais, invasões e derrubada de perfis. Foram também identificados como integrantes desse núcleo Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos e Victor Lima Sedlmaier, vinculados funcionalmente a David. Todos foram presos. Katherine Venâncio Telles teria uma vinculação a David com apoio as atividades do grupo. Ela não foi presa. Está proibida de se ausentar da comarca e do país.

Apoio contábil

A representação descreve, ainda, a existência de uma camada de apoio patrimonial e contábil à estrutura criminosa. Nessa linha, a Polícia Federal atribui a Erlene Nonato Lacerda o papel de interposta pessoa e gestora financeira de Marilson Roseno da Silva,  incumbida da realização de pagamentos e de controle de suas despesas particulares; e Helder Alves de Lima, contador vinculado à empresa utilizada por Marilson, a responsabilidade pela emissão de
notas fiscais e pela instrumentalização documental dos pagamentos. Os dois estão proibidos de se ausentar da comarca e do país.

Informações estratégicas

Segundo as investigações, a organização contava ainda com integrantes infiltrados nas forças de segurança para obtenção de informações sigilosas sobre apurações em curso. Entre eles estão a delegada da PF de Minas Gerais Valéria Vieira Pereira e o agente da PF Francisco José Pereira da Silva, suspeitos de utilizar acesso ao sistema e-Pol para repassar dados sigilosos ao policial federal aposentado Marilson Roseno.

O ministro Mendonça determinou o afastamento da  delegada e do agente das funções públicas e proibidos de acessar dependências e sistemas da Polícia Federal. Também foram impostas outras medidas cautelares, como entrega de passaportes e proibição de deixar as cidades de residência e o país.

De acordo com o relator, o conjunto de fatos e provas apresentado pela PF “aponta para organização criminosa sofisticada, com braços presencial, policial-informacional, financeiro e tecnológico, em circunstância que exige resposta judicial compatível com a gravidade concreta do quadro apurado”.

Todas as prisões preventivas e demais medidas cautelares tiveram parecer favorável do Ministério Público Federal.

Decisão Mendonça 6 fase Operacao Compliance Zero