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Renan, o sobrevivente, volta aos holofotes

Renan, o sobrevivente, volta aos holofotes

Senador da Republica há 26 anos – o primeiro mandato começou em 1995 – , Renan Calheiros (MDB-AL) será doravante o centro das atenções dos jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, confirmado relator da CPI da Covid-19, requerida no início de fevereiro pelo senador Randolphe Rodrigues (Rede-AP).

O senador volta, portanto, aos holofotes, a menos que na data de instalação da CPI, anunciada para o dia 22 de abril (após o feriado) ou para o dia 27, tudo mude, por obra e graça de uma nova intervenção governista que tentou e ate agora não conseguiu afastar o experiente senador da relatoria, o cargo mais duro e que mais pressão sofre, de dentro e de fora, durante o andamento de investigações iniciadas pelo parlamento. Ou, quem sabe, outra motivação surja no âmbito do próprio Senado.

É claro que a ligação de Renan Calheiros com o ex-presidente Lula é algo que coloca um pulgueiro atras da orelha de Jair Bolsonaro, um presidente dado a conspirações e mania de perseguição, e em certo sentido procede a preocupação – Calheiros se manteve leal a Lula durante a prisão, o visitou em Curitiba e foi contra seu próprio partido, o MDB, jamais hipotecando apoio a Henrique Meireles na campanha de 2018 e sim ao líder petista. Que também volta à ribalta, apto a participar de nova eleição.

Como então garantir, diante dos interesses pessoais predominantes no parlamento, que o locus das discussões não se transformará na irradiação de propósitos políticos do lulismo, de olho em 2022? Não há como, e sabe-se que é de se prever como as CPIs começam, mas não dá para saber como terminam.

Renan, no twiteer: promessa de isenção.

Quero crer que a politização da vacina, e agora, diante das inquietações que tomam conta do país, com a economia praticamente na UTI e com o  descontrole da crise sanitária gerando não somente mortes mas uma legião de brasileiros miseráveis, que a posição politizada da CPI e do relator seria uma condução arriscada, de causar monumental reprovação e reação, especialmente por parte dos partidários de Bolsonaro.

Entrevistado pela Globo News, Calheiros disse que não irá politizar sua atuação na CPI. “Vamos fazê-la com absoluta responsabilidade, isenção. Não vamos fazer força tarefa, power point, nada. Vamos apurar fatos.” É o que se espera, e ao governo não resta outra coisa senão se preparar.

Em outro momento, ao Estadão de São Paulo, disse que a CPI será técnica, o trabalho será facilitado porque “muita coisa que investigará é pública” e que os governos que tentaram intervir em CPI deram com os burros n’ água.

Logo iremos saber. Por enquanto, sabemos que Renan Calheiros, 65 anos, é um sobrevivente no espectro da política nacional desde que o presidente Fernando Collor o nomeou líder de seu governo no Congresso Nacional, depois Renan pediu seu impeachment, e foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Foi presidente do Senado Federal por três períodos, num deles – 2005/2007 – bastante próximo de Luiz Inácio Lula da Silva a ponto de se envolver nas orgias da corrupção, e na época se livrou da cassação do mandato em razão da acusação de ter comprado duas emissoras de rádio e um jornal em Alagoas em nome de laranjas.

Naquele momento, renunciou à presidência. Escapou da degola de novo em 2016, quando ocupava novamente a Presidência do Senado. Réu por peculato, o ministro Marco Aurélio Mello, em liminar, atendendo o partido Rede, decidiu afastá-lo do cargo, mas em dezembro daquele ano o Plenário da Corte decidiu mantê-lo na Mesa Diretora por 6 a 3.

Decidiu também que parlamentar na condição de réu está impedido de fazer parte da linha sucessória da Presidência da República. Já os colegas senadores, no escurinho secreto da urna, abraçaram outra vez o corporativismo e garantiram sua sobrevida política.

Renan ficou, mas a desgraça em que caíram o petismo e o emedebismo, enroscados na lei e nas ruas por seus próprios crimes, impediu uma ambicionada nova eleição para presidir a Mesa Diretora, em 2019, levando o prêmio um desconhecido Davi Alcolumbre, do Democratas do Amapá.

A bronca dele com a Lava Jato é gigante, não para menos. Dos 11 inquéritos a que respondia no STF em 2016, nove estavam relacionados a fatos apurados na Operação Lava Jato. A deputada Carla Zambelli (PSOL-SP) diz que ele tem mais de 40 processos e agora 6 inquéritos no STF, e sustenta que essa robusta credencial é impeditivo para ser relator da CPI em ação que patrocina na justiça federal.

Se ele pode ser senador, como se evitará que seja relator da CPI? Infelizmente, Renan sobrevive por inércia da justiça, por méritos políticos e pela atávica resistência de uma geração de políticos com tradição familiar que no nordeste especialmente encontra terreno fértil para longeva consagração, e se fez milionário no poder. É parte de uma geração  com os dias contados. E nela cabem, com personalidade, origem e história diferenciadas, evidente, políticos como Luiz Inácio e Jair Bolsonaro.

Editada às 22h35, 19/04.

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